terça-feira, 14 de agosto de 2007

ONDAS DIONÍSICAS



Você não é você, não é ele, não é nada, ninguém.

Mas é, nas entrelinhas desse olhar bestial, mestre nos disfarces humanos. Esconde-se de tudo, de mim, mas o vejo de perfil, permeio seus gestos artificiais e suas brincadeiras cruéis.

A pele é macia, a figura, uma fantasia de filme de época.

O corpo leve, como uma brincadeira de criança. A energia sutil e perigosa, bastaria tocar na pele do seu rosto para sentir a realidade.

Você ri da minha ingenuidade, do meu gesto infantil.

Quisera tocá-lo profundamente, mas está tão distante, foge dos meus encantos e o seu canto só eu sei, é o cântico dos cânticos.

Aparece e desaparece, passa o tempo brincando e eu o cultuo, presto minhas reverências, sentindo o auspício da sua presença.

Você me dá uma chave e um corredor com muitas portas. Eu corro ansiosa, tentando uma por uma. Volto o rosto, escuto sua risada sarcástica.

É um enigma perigoso... Vejo no canto da sua boca, além da prova real, escorrer o vinho que me embriaga. E na busca da liquidez do delírio, perco a razão.

A lucidez dá lugar ao êxtase, sinto-me só, mas não causo pena. Você espera o meu triunfo num carro amarelo com sete velocidades diferentes. Não me dá o privilégio de tocar-lhe o âmago; não me dá de beber do seu êxtase, sem limites.

Vem em ondas, deslizo devagar... Um suor quente escorre pelo meu pescoço, sinto as pernas vibrarem, não consigo controlar.

As pernas entre pernas, são as minhas próprias penas, arraigadas ao pó da terra, não me permitem voar.

Sacia-me com essa liquidez avermelhada e num gesto mutante, crio asas como Pégasus.

Deixe-me flutuar no éter até o Sol de Sírio, em troca, só tenho um girassol.

Não aprecio do seu vinho? Não conheço o seu sabor? Não distinguo o seu cheiro? Não reconheço suas ondas?

Ensina-me então, a Ciência/Arte da transmutação...

Então você me olha, com esse olhar humano, disfarçando o brilho, usando um corpo falso, uma pele falsa, pernas como tantas pernas, tanto quanto iguais as minhas, para me enganar.

E eu, choro... Por não alcançar sua essência, penetrar o seu íntimo, tornar-me o elétron e desvendar os mistérios da criação.

Com esse olhar bestial, olhar dos deuses hilariantes, não me traia doze vezes, não me castigue dezesseis, mostre-me a verdade, tal como é...

Abaixe a cortina, quero vislumbrar a beleza plena da luz, fale comigo e me leve até a porta... Então, abraça-me apertado e beije meu umbigo... Segure nas minhas mãos e nunca me deixe. E num gesto impulsivo, me gire no espaço, Virtual Criatura Andrógina, transmutando-se em pura energia eletrônica e despedaçando-me em sons mágicos.

Elizabeth

Um comentário:

Anônimo disse...

gostei achei super legal um abraço;vale